domingo, 23 de julho de 2017

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - ARTE COM MUITA OFICINA (2)

Por: José Ruy


Em 1934, Milton Caniff foi desafiado pelo editor do «New York Daily News» para criar uma tira diária passada no lendário e misterioso Oriente.
E mudou-se com «armas e bagagens» para New York.
Caniff pouco sabia dessa parte do mundo e teve de se documentar com rigor sobre a história da China, dos costumes dos seus habitantes e das tradições de família que transitavam através de gerações. De tal modo, que parecia ter habitado nesse país, pela maneira realista como criava e desenhava os ambientes.
Eis a primeira tira de apresentação dessa série diária.

Terry Lee era um rapazinho que viajava pela misteriosa China acompanhado por um mentor - Pat Ryan, um aventureiro - e por mais personagens. Apareceu ao público a 22 de outubro de 1934.

Em dezembro desse mesmo ano Caniff passou também a participar nas séries independentes desse jornal, publicadas ao domingo. As aventuras dessas séries funcionando com as mesmas personagens, tinham argumentos diferentes, nada tendo a ver com a história que decorria diariamente nas tiras.

Estas tiras eram publicadas diariamente, menos ao sábado e ao domingo. Ao contrário de outros autores norte-americanos e até ingleses, Caniff não repetia no início da tira do dia seguinte, o fim do que acontecia na anterior. Mantinha uma tal fluência na narrativa, que tornava dispensável a leitura das legendas para se compreender a história.
Outros jornais, mesmo na Europa, reuniam estas tiras editadas de segunda a sexta-feira e formavam páginas que publicavam semanalmente. Tanto a sequência do movimento como o desenrolar da ação não se ressentiam pela intermitência na publicação dia a dia. Era como se tivesse sido concebida de início como uma página inteira. Em todas as tiras podemos ver a assinatura do autor, bem como o carimbo da agência editora.

Uma página com cor das edições de domingo, ainda no princípio da série...

...e um original desenhado a tinta-da-china, uns anos mais tarde.
Nota-se que o autor trabalhava estas últimas páginas em duas metades que eram unidas na altura da reprodução, pois os originais tinham uma grande dimensão. Uma cópia do título, em papel de jornal, era colada na vinheta inicial apenas para marcar a posição, pois a agência sobrepunha em todas as pranchas a matriz que possuía.
Assinala-se aqui uma notável evolução no desenho.


A personagem Terry Lee foi crescendo, alistou-se na Força Aérea e chegou a combater na Segunda Guerra Mundial. Por essa altura Caniff foi convidado a desenhar uma tira exclusiva para sair nos jornais militares e mais tarde doou esses originais às Forças Armadas.
No decorrer da História de ficção, em 1942, Terry foi expulso pelos japoneses de uma ilha do Pacífico. Isso teve uma tal repercussão junto do público, que o Pentágono pediu ao autor para que o herói reconquistasse a ilha, a bem do ego nacional.
Precisamente nessa data, o mestre Rodrigues Alves contou-me, bem como aos meus colegas, que numa das encruzilhadas do argumento que se desenrolava no Oriente, Caniff idealizou uma situação em que Terry e os seus companheiros que combatiam os piratas chineses, se encontravam encurralados sem possibilidade aparente de escaparem.
Por coincidência, e sem que Caniff soubesse, decorria uma situação idêntica com as tropas americanas que lutavam no Pacífico, mas em que os japoneses eram os encurralados. Como o herói Terry não poderia sucumbir, e admitindo a hipótese de o inimigo acompanhar a série, o desfecho que o autor desse ao enredo podia ser utilizado para que os sitiados conseguissem escapar. Tal era o rigor do argumento.

O Alto comando das Forças Armadas norte-americanas manteve Caniff isolado no seu ateliê, com guarda à vista, para ver qual a saída que ele criava para a situação, e verificar tratar-se de um caso de espionagem lesa pátria, ou simplesmente de uma coincidência.
Não me recordo como Caniff desfez o «imbróglio», mas contou o Mestre Alves que entretanto os japoneses foram mesmo derrotados, antes da continuação da história nas páginas dos jornais. Um alívio para Milton Caniff que tinha de salvar o seu herói sem que a estratégia pudesse ajudar o inimigo na situação real.
Esta personagem, embora criada por Milton Caniff, tinha os direitos cativos pelo «Chicago Tribune-New York Daily News Syndicate» e apesar da série ter alcançado o maior sucesso, mesmo internacionalmente, o autor não era dono do título. Desgostoso, Caniff aceitou a proposta de Marshall Field, editor do «Chicago Sun» para produzir uma tira própria.
(continua)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

LITERATURA E BD (11) - JOSÉ DE ALENCAR

José de Alencar (1829-1877)
De seu nome completo, José Martiniano de Alencar, nasceu em Messejana (Ceará, Brasil) a 1 de Maio de 1829 e faleceu no Rio de Janeiro a 12 de Dezembro de 1877.
Segundo certos registos biográficos a seu respeito, foi político, advogado, orador, jornalista, cronista, polemista, dramaturgo e romancista. Enfim, uma vida bem vivida e bem agitada!
Controverso pelo mundo brasileiro, pelo nosso Portugal importa muito mais a sua obra literária na vertente do romance, onde ele sempre nos encanta.
Por esta via, escreveu obras de belo registo histórico que nos emocionam. Títulos bem famosos: a impecável trilogia “índia”, com “Iracema”, “O Guarani” e “Ubirajara”; e depois, nos principais, “O Tronco do Ipê”, “Til”, “O Gaúcho”, “O Sertanejo”, “Senhora” e por aí adiante...
Dos seus vinte romances, há alguns que se destacam com alta força, como “O Guarani” (com altíssima posição), que foi adaptado à Ópera com a esmagadora beleza da partitura de Carlos Gomes, ao Cinema (com várias versões, nem sempre conseguidas) e ao notável seriado-TV (em 1991), cuja versão foi transmitida em tempos pela nossa RTP 1, onde se destacam as brilhantes interpretações de Leonardo Brício (Peri, o Guarani) e Angélica Ksyvickis (Cecília). Já a versão de Cinema com Márcio Garcia, foi um tremendo “flop”!
Pela Ópera, as melhores versões (existentes em CD), são as interpretadas por Nilza de Castro Tank (Cecília) e Maurício Patassini (Péri), com edição Chantecler; e, por Dalka Oliveira e Assis Pacheco, com edição da Secretaria de Estado da Cultura do Brasil.
Pois pela Banda Desenhada, José de Alencar jamais esteve esquecido, antes pelo contrário. Focamos, a seguir, apenas alguns exemplos.
A primeira adaptação conhecida foi "O Guarany", por Francisco Acquarone, publicada em 1937 no jornal brasileiro "Correio Universal", uma peça histórica recentemente reeditada pelas Edições do Senado Federal (Brasil). 
Capa e tiras de "O Guarany", por Francisco Acquarone, Edições do Senado Federal, volume 235 (2017)
O nosso José Ruy desenhou admiravelmente “Ubirajara” - a partir de uma adaptação de Maria Fernanda Pinto ao texto de José de Alencar - que foi publicado a cores no “Cavaleiro Andante”...
"Ubirajara", por Maria Fernanda Pinto (adaptação) e José Ruy (desenhos),
in "Cavaleiro Andante" #210 a #229 (1956)

...sendo mais tarde reeditado (a preto e branco) pelas edições Futura, em versão álbum (esgotado).
"Ubirajara" por Maria Fernanda Pinto (adaptação) e José Ruy (desenhos),
in "Antologia da BD Portuguesa" #1 (Edições Futura, 1982)

Mas o mesmo romance, “Ubirajara”, também foi adaptado pelo haitiano André Le Blanc, que viveu vários anos no Brasil, trabalhando para a editora EBAL, sobretudo para a colecção “Edição Maravilhosa”. 
"Ubirajara" por André le Blanc (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Clássicos Ilustrados" #57 (Outubro de 1952)

Para esta linha, André Le Blanc, também desenhou “O Guarani”...
"O Guarani" por André le Blanc (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Clássicos Ilustrados" #24 (2.ª edição, Fevereiro de 1954)

...“Iracema”...
"Iracema" por André le Blanc (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Clássicos Ilustrados" #31 (Janeiro de 1951)

...“O Tronco do Ipê”, etc.
"O Tronco do Ipê" por André le Blanc (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Clássicos Ilustrados" #46 (Março de 1952)

O nosso Jayme Cortez também adaptou "O Tronco do Ipê", em formato de tiras, para o jornal brasileiro "Diário da Noite" mas de tal exemplo por ora não temos imagens.
Mas outros notáveis do traço brasileiro por aqui se apostaram, como José A. Rossin, com “Til”...
"Til" por José A. Rossin (adaptação e desenhos) e capa de Gutemberg Monteiro,
in "Álbum Gigante" #7 (Julho de 1955)

 ...e José Geraldo com “O Sertanejo”...
"O Sertanejo" por José Geraldo (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Extra" #95 (Novembro de 1954)

...ou “O Gaúcho”, por exemplo.
"O Gaúcho" por José Geraldo (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Extra" #83 (Março de 1954)

E mais: “O Guarani”, teve, entre outras adaptações (agora mais recentes) as de Juliano Oliveira e Rosana Rio, que adaptaram a ópera de António Carlos Gomes e António Scalvini, baseada na obra original de José de Alencar...
"O Guarani" por Rosana Rio (adaptação) e Juliano Oliveira (desenhos),
Colecção Ópera em Quadrinhos, Edição Scipione (2012)

...e a da parceria Ivan Jaf / Luiz Gê.
"O Guarani" por Ivan Jaf (adaptação) e Luiz Gê (desenhos),
Colecção "Clássicos Brasileiros em HQ" - Ática Editora (2009)

Os brasileiros Ivan Saidenberg e Moacir Rodrigues Soares, das Produções Walt Disney, também focaram "O Guarani", numa aventura de Zé Carioca (como não poderia deixar de ser)...
"O Guarani", numa aventura de Zé Carioca, por Ivan Saidenberg (argumento)
e Moacir Rodrigues Soares (desenhos) (Estúdios Disney, 1984)
José de Alencar, que escreveu sete peças de Teatro, tem uma estátua no Rio de Janeiro e outra em Fortaleza (junto a um hotel de renome).
Foi homenageado também na Filatelia do Brasil com um selo de 30 cruzeiros (a moeda local de então) em 1965, comemorativo do centenário da publicação do romance “Iracema”.
A finalizar, dois pensamentos de Alencar:
O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte”.
“Só a ignorância aceita e a indiferença tolera o reinado da mediocridade”.

Agradecemos o fraterno apoio prestado por Carlos Gonçalves.

domingo, 16 de julho de 2017

NOVIDADES EDITORIAIS (125)

O TESOURO DOS DALTON - Edição Asa. Autores: argumento de Morris, com a colaboração de Vicq; arte gráfica de Morris.
Em português, foi agora finalmente editada esta aventura do famosíssimo Lucky Luke. Pois em boa hora aparece esta edição, dado que a narrativa é uma das mais divertidas desta popular série, com uma situação quase absurda: os famigerados irmãos Dalton querem à viva força ser presos!... Especialmente, numa determinada e específica moderna cadeia... E que cadeia!...
Mas o juiz local é muito “afável” e não dá sentença de prisão. 
Pois então, os quatro manos, desta vez, não elaboram um túnel para se evadirem mas, pelo contrário, escavam um túnel para invadirem a prisão!
Porquê?!... Isso explica-se tudo nas trapalhadas narradas neste álbum... Leiam-no!

NIGREDO, L’OEUVRE AU NOIR - Edição Glénat. Autores: argumento de Alejandro Jodorowsky e arte de Jérémy (aliás, Jérémy Petiqueux). É o primeiro tomo da série  “Les Chevaliers d’Héliopolis”.
Algures, no norte de Espanha, funciona uma poderosa sociedade secreta, protegida e bem escondida na fortaleza-templo dos cavaleiros de Heliópolis...
Jodorowsky, na sua vigorosa maneira de inverter aspectos controversos da História, aqui e à sua maneira, recria a história do enigmático rei Louis XVII, filho de Louis XVI e de Marie-Antoinette, que foram guilhotinados nos furores da Revolução Francesa.
pequeno (dito Louis VII) teria sido morto ainda na prisão... Foi?!...
Por aqui, ele é salvo pelos Cavaleiros de Heliópolis, com a cumplicidade da famosa Charlotte Corday, que assassinou o temível revolucionário Marat e que depois, foi também guilhotinada.
Mas o jovem nobre francês, que terá nascido hermafrodita, é educado pelos Cavaleiros e torna-se num astuto e valente justiceiro...
Pois, pois!

 
TERRE DE FOLIE - Edição Delcourt. Autores: argumento de Leo e Rodolphe, traço de Zoran Janjetov e cores de Zoran Janjetov Jr. É o terceiro tomo da série “Centaurus”.
Desde que a Terra se tornou inabitável, uma monumental nave espacial, com milhares de terrestres a bordo, avança pelo Cosmo em busca de um novo planeta, capaz de acolher a nossa raça...
As gerações sucedem-se nessa quase infindável viagem, até que julgam acertar com o objectivo, no planeta Vega da constelação do Centauro...
Mas Vega está cheio de enigmas, perigos e armadilhas... E será que este planeta Vega é mesmo o autêntico? Não estarão estes atrevidos sobreviventes a ser iludidos e manipulados por um misterioso ser que se infiltrou na nave-cidade-mundo, durante a imensa viagem?

 
LE DERNIER MASQUE - Edição Lombard. Autores: argumento de Jean Dufaux e arte de O. Grenson.
Com este 15.º tomo, “Le Dernier Masque (A Derradeira Máscara), se encerra a série “Niklos Koda”, que cedo entusiasmou os leitores.
Niklos Koda, de aparente ascendência grega, que começou por ser um diplomata e agente secreto francês, muito namoradeiro também (qual um James Bond à francesa), a pouco e pouco, vai-se desviando da linha original das suas aventuras, mergulhando em universos da Magia Negra e da Magia Branca. Terrores que funcionam ou meras fantasias novelescas?...
Nos últimos tempos, Koda, vive perseguido por diversas forças e/ou entidades. E está pronto a ceder, mas antes, o seu objectivo máximo: salvar a sua filha adolescente, Seleni, que, por sua vez, também já é capaz de actuar em pleno pelas vias sinistras das Magias.
E pronto: com Seleni salvaguardada e com o sacrifício de Niklos Koda, a série por aqui se termina.
LB

quarta-feira, 12 de julho de 2017

NOVIDADES EDITORIAIS (124)

LA JEUNESSE DU HÉROS - Edição Glénat. Autores: argumento de Clotilde Bruneau, traço de Annabel, cores de Chiara Zeppegno e capa de Fred Vignaux, segundo a colecção “La Sagesse des Mythes”, concebida e escrita por Luc Ferry.
“La Jeunesse du Héros” é o primeiro tomo da trilogia “Héracles”, onde se relata como este herói, meio-homem meio-deus, foi concebido, ou seja, programado por Zeus, ao enganar e seduzir a rainha Alcmena enquanto o esposo desta, Anfitrião, estava ausente.
Foi o astuto Hermes que aconselhou Zeus para esta golpada. O pior, são os implacáveis ciúmes de Hera, a esposa de Zeus...
No entanto, Héracles vem ao mundo e irá tornar-se num valente e bravo herói.


REBELIÃO - Edição Asa. Autores: argumento de Philippe Graton e Denis Lapière e arte gráfica de Marc Bourgne e Benjamin Benéteau.
É o sexto tomo da nova fase das aventuras de Michel Vaillant, cuja família está decadente e bem desacreditada.
No entanto, o jovem engenheiro Patrick, filho de Michel, concebe um modelo revolucionário e a marca alcança inscrever-se nas míticas “24 Horas de Le Mans”... Isto, enquanto toda a família vive o doloroso luto pelo falecimento de Jean-Pierre, irmão de Michel, que não sobreviveu a um aparente e desesperado suicídio... Porém, a polícia suíça abre um inquérito, pois Michel Vaillant, é considerado suspeito pela morte do irmão...
Este episódio termina com a vitória de Michel em Le Mans, mas sendo imediatamente algemado pela polícia e com todas as televisões a filmarem tal momento...


LAURENT, LE MAGNIFIQUE - Edição Soleil. Autores: argumento de Olivier Peru e traço de Eduard Torrents.
É o segundo tomo da série “Medicis”, localizada em plena Renascença.
A cidade de Florença está no auge com todo o tipo de bens, liberdades e cultura.
Todavia, ao jovem e rico banqueiro Lorenzo Medicis, que governa esta república italiana como um autêntico rei absoluto, não faltam invejas, conspirações, intrigas e
calúnias, sobretudo da parte do escabroso papa Sisto IV... Não faltam também,  assassinatos e execuções sumárias!
“Medicis” é uma série aparentemente cruel, mas é, sobretudo, uma série apaixonante.


PANDORA / 3 - Edição Casterman. É o terceiro número desta revista-álbum, que reúne um vasto leque de desenhistas de várias nacionalidades.
Desta imensa galeria que engloba obras de vários estilos, salientam-se alguns talentos admiráveis, como Rubén Pellejero, Johan de Moor, Fabio Viscogliosi, Anthony Pastor, Art Spiegelman, Jacques de Loustal, Miguelanxo Prado, Jean-Chistophe Menu, Tom Tirabosco, Vittorio Giardino, etc, etc.
Muita e variada banda desenhada à apreciação, segundo o gosto de cada um.
LB