sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PELA BD DOS OUTROS (25) - A BD DO SRI LANCA

Localização do Sri Lanca
Na Antiguidade Clássica e na Idade Média, este território era conhecido como Tabrobana, tal como o nosso Camões cita logo no início de “Os Lusíadas”.
Depois, passou a ser mundialmente conhecido como Ceilão, até 1972, até que em 1978, passou oficialmente a denominar-se por Sri Lanca (ou Lanka).
É um território-ilha situado ao sul da Índia. Já seria habitado desde a Pré-História, e é uma amálgama de povos e religiões.
Esta república tem por capital política a cidade de Kotte, muito embora a principal cidade seja Colombo, fundada por D. Lourenço de Almeida. Exactamente, foram os portugueses os primeiros europeus a abordar e  estabelecer-se neste território.
De um modo geral, houve uma reciprocidade de simpatia e mistura de portugueses e cingaleses diversos. Mais tarde, os cobiçosos holandeses tentaram e conseguiram dominar temporariamente a ilha. Depois, ainda mais ávidos, chegaram os ingleses imperialistas, até que o ex-Ceilão se tornou merecidamente independente em Fevereiro de 1948.
Tem como moeda a rupa cingalesa e ainda hoje, há famílias com apelido português. Foi um dos países que sofreu as amarguras pelo trágico tsunami de 2004.
No Desporto, as principais modalidades são: o criquete, o voleibol e o atletismo, com o futebol por perto.
No plano da Banda Desenhada, tem um bom lote de desenhistas e cartunistas, como os veteranos Camillus Perera (este apelido - parece-nos - é, muito possivelmente, derivado do português Pereira)...

G.S. Fernando (1904-1990, também com sangue português?!)...

Aryadasa W. R. Wijesoma...
...e, nos exemplos mais recentes, Prageeth Eknaligoda... 

Winnie Hettigoda...

...e Atula Siriwardane.

São valores interessantes da Banda Desenhada do Sri Lanca que talvez interessem aos insaciáveis curiosos desta Arte...
Camillus Perera, G. S. Fernando, Atula Siriwardane e Aryadasa W. R. Wijesoma
Para terminar e para os bons “garfos”, indicam-se alguns dos pratos típicos da respectiva gastronomia: Appam (um tipo de panqueca tradicional), Kottu (um especial pastel bem recheado), Parippu (caril de lentilhas), Sambol (uma especialidade “escaldante” a polvilhar qualquer outra refeição), Kukul Mas (caril de galinha) ou ainda, Wambatu Moju (picles de beringela). E não será necessário, mas mesmo assim se lembra, que a maioria destes desafiadores pratos são altamente picantes...
O Embaixador do Sri Lanca para Portugal é residente em Paris.
LB

terça-feira, 17 de outubro de 2017

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - ARTE COM MUITA OFICINA (6)

Por: José Ruy


Harold Foster entintando uma prancha de Príncipe Valente
Outro grande autor norte-americano, tanto no desenho como no argumento, é Harold Rudolf Foster, que se celebrizou com a personagem «Príncipe Valente». Mas este conseguiu um estatuto único na agência «King Features Syndicate». As suas páginas eram concebidas num todo, sem a possibilidade de serem alteradas para outros formatos de jornais ou revistas.
As composições épicas, que por vezes ocupavam quase toda a página numa única vinheta, eram monumentais. Facilmente cativaram o apreço e a admiração do público, e todos os jornais que publicavam a série, nas muitas cidades dos Estados Unidos da América, mantiveram o formato, sem alteração.
Mas será que os seus desenhos foram sempre respeitados no seu enquadramento original? É o que veremos mais adiante. Por agora debrucemo-nos noutro pormenor, também importante.
Bom aguarelista além de desenhador a tinta-da-china, técnica que dominava magistralmente, Foster coloria as pranchas dando largas à sua sensibilidade de pintor. Reparemos, na prancha seguinte, como nas imagens onde se veem os Alpes, no horizonte, ele deixou sem contorno parte das montanhas, criando um efeito de leveza e distância.
Todos os jornais que simultaneamente publicavam a série nos Estados Unidos, usavam as quatro cores, mantendo assim este efeito.
Mas nem a agência «King Features Syndicate» nem o autor contaram com as publicações só a preto e branco, e que foram muitas, principalmente na Europa.
A «King» fornecia aos jornais provas a preto sobre couché, e era assim que O Mosquito na década de 40 do século XX as recebia. Portanto o que não estava contornado a tinta-da-china não aparecia no desenho. E esses belíssimos efeitos de cor nos fundos perdiam-se.

Foster sobrepunha uma retícula no traço negro do desenho, para ajudar a tirar um melhor partido da cor, e na ausência desta mantinha a página com a meia-tinta que destacava os volumes e por vezes também os planos.
Mas não previram o tamanho de certas publicações, que por serem tão pequenas obrigavam a uma redução da página inteira para além dos limites de segurança e do aceitável, e a retícula nessa compressão, ao ser impressa no papel transformava-se num borrão prejudicando o desenho.
(continua)

sábado, 14 de outubro de 2017

NOVIDADES EDITORIAIS (129)

A VIDA DE CHE - Edição Levoir / Público. Argumento de Héctor Germán Oesterheld. Grafismo de Alberto Breccia e Enrique Breccia. Apresentação e biografia dos autores por João Miguel Lameiras, e prefácio por Ernesto Sábato.
O Cinema tem explorado bem a figura de Che Guevara e vários actores de nomeada o viveram na tela, como os espanhóis Francisco Rabal e Eduardo Noriega, o egípcio
Omar Sharif, o mexicano Gael Garcia Bernal e o portorriquenho Benício Del Toro. Com mais ou menos fantasia, todos procurando dar o melhor...
Na Banda Desenhada, há uma novela gráfica, “Che Guevara”, pelos italianos Marco Rizzo e Lelio Bonaccorso, mas por cá só conhecíamos a edição da Casterman (2006), “Libertad! - Che Guevara”, com argumento de Maryse e Jean-François Charles e arte de Olivier Wozniak.
Agora, finalmente em português, a obra por excelência em BD, versando a vida admirável e sofredora do médico argentino Ernesto Guevara de la Serna, dito, Che Guevara. Uma obra espantosa e comovente!
O argumento é do frontal Héctor Gusmán Oesterheld, raptado e assassinado pelas forças argentinas de então. O cilindrante grafismo a preto-e-branco, pertence ao incontornável Alberto Breccia (nascido no Uruguai e que, ainda petiz, foi com a família, viver para a Argentina), com a colaboração, em estreia, de seu filho Enrique Breccia, agora a residir em Itália.
No tocante prefácio, Ernesto Sábato (Junho de 1911 a Abril de 2011), este, de um modo claro e directo, em certos aspectos, compara Che Guevara a D. Quichote e a Jesus Cristo... Nada errado, nestes pareceres!
Este “A Vida de Che” é uma extraordinária obra-BD de excepção, sugerindo uma rigorosa, atenta e obrigatória leitura, nestes 50 anos sobre o assassinato de Che Guevara.


DIÁRIO DE ANNE FRANK - Edição Porto Editora. Autores: Anne Frank e a parceria Ari Folman (argumento) e David Polonski (arte).
Neste 2017, evoca-se, nesta obra, a vida e o martírio da jovem judia (holandesa) Anne Frank, assassinada pelos energúmenos nazis sob as ordens do paranóico austríaco Adolf Hitler.
Anne Frank, pelo seu diário que, felizmente, foi descoberto e salvo, permitindo que ela se tornasse num comovente ícone, vítima de um dos piores e infames massacres que o bicho-homem tem efectuado sobre o seu semelhante.
Loucuras cruéis que são inconcebíveis, mas que aconteceram! Onde pára o Deus Criador, tão vigilante e bondoso?
Pois Anne Frank está agora numa bela versão em Banda Desenhada, num álbum que foi lançado, quase em simultâneo, em França e em Portugal.
Por favor, leiam-no!


A BALADA DA CONQUISTA DE LISBOA - Edição: Gicav (Viseu). Autores: Eduardo Teixeira Coelho (desenho) e Raul Correia (texto).
"A Balada da Conquista de Lisboa" é uma narrativa que faz parte da maior epopeia da BD portuguesa de todos os tempos, "O Caminho do Oriente", história publicada em 1946, na 1.ª série do jornal "O Mosquito", entre o #749 e o #941.
Nela podemos apreciar a espantosa arte de ET Coelho, saudoso desenhador de traço dinâmico e elegante, aliada ao texto de Raul Correia, outro nome incontornável da nossa BD. 
Publicada com as cores originais, "A Balada da Conquista de Lisboa" teve o seu lançamento aquando da inauguração da exposição "Dom Afonso Henriques na Banda Desenhada" (durante a última Feira de São Mateus) e insere-se na linha de álbuns que o Gicav tem vindo a editar nos últimos anos, numa lógica de recuperação de obras clássicas da BD portuguesa.
É um trabalho meritório, só possível devido à sensibilidade e ao amor à causa que esta colectividade viseense demonstra.
Bravo Gicav!
  


LE PACTE D’OBSIDIAN - Edição Glénat. Autores: argumento de Mike Carey, traço de Peter Gross e cores de Fabien Alquier. É o primeiro tomo da série “Le Haute Palais”.
O entusiasmo e a curiosidade ante a ideia anunciada para esta obra, cedo esmorece ante a observação da mesma. A pouco e pouco, vai-se tornando aborrecida e, mesmo, bocejante.
Há uma amálgama  de ideias e de filosofias que já foram usadas e abusadas em diversas e similares obras. Se o enredo vai sendo monótono e aborrecido, o traço e as cores, por sua vez, deixam muito a desejar...
LB

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

BREVES (48)

UM SÁBADO EM CHEIO NO CPBD!
Realiza-se este sábado, 14 de Outubro, pelas 16:00 horas, na sede do Clube Português de Banda Desenhada, na Amadora, uma Assembleia Geral onde se irão eleger os novos corpos sociais do clube.
Antes e após a eleição, proceder-se-á à inauguração de quatro(!) exposições, todas elas de inegável interesse:
Pelas 15:30, "Os cinquenta anos dos Schtroumpfs em Portugal"...
Meia hora mais tarde, inaugura a exposição dedicada à saudosa revista "Zorro"...
Pelas 17:00 horas, inauguram, em simultâneo, as exposições sobre "Os 80 Anos da Branca de Neve e os Sete Anões nos Jornais"...
...e sobre "Os 75 Anos do Bambi nos Jornais".
Tudo boas razões, como se vê, para uma visita à novel sede do CPBD, sita na Avenida do Brasil, n.º 52A, Falagueira (Amadora). 






AMADORA BD 2017

O Festival Amadora BD, a realizar entre 27 de Outubro e 12 de Novembro próximo, divulgou há dias a sua imagem gráfica.
Trata-se de um cartaz com desenho de Nuno Saraiva, um dos autores em destaque na edição deste ano.
Já sabemos que o tema do festival é "A Reportagem", sendo que as obras de Jack Kirby e Will Eisner serão evocadas por ocasião do centenário do nascimento de cada um destes autores.
Mais informação poderá ser consultada aqui. 



BLACK & MORTIMER SOB PRESSÃO
Vanderhaeghe, com a famosa carta de Jacobs (foto: Le Soir/René Breny)
Do excelente blogue espanhol blake-y-mortimer.frognier.es reproduzimos a seguinte e inquietante notícia.
Uma carta, escrita por Edgar P. Jacobs a Christian Vanderhaeghe, então administrador da  Fundação Jacobs, e também Director das Edições Blake & Mortimer, está a gerar alguma polémica no meio bedéfilo franco-belga.
Na carta, Edgar P. Jacobs afirma, em determinado parágrafo, que "É mentira que possa haver novos álbuns de Blake & Mortimer; ao dizê-lo está-se a enganar o público e criam-se falsas espectativas entre os leitores"
Ora, há quem interprete estas afirmações como um desejo de Jacobs para que as suas personagens não vivessem mais aventuras, o que, como se percebe, é desvalorizado pela Dargaud, que refere que "seria absurdo acabar com a série agora".
Philippe Biermé, presidente da extinta Fundação Jacobs, já veio a público dizer que "A Dargaud corre o risco de perder os direitos de publicação das aventuras de Blake & Mortimer e de ver escapar-lhe, definitivamente, por entre as mãos, o controlo do património de Jacobs"...
Aguardemos para ver o desenlace de toda esta delicada situação, by jove!


ANIVERSÁRIOS EM NOVEMBRO

Dia 04 – Pedro Brito
Dia 08 – Paulo Monteiro
Dia 14 – João Amaral
Dia 16 – Clarke (belga) e Maikel (espanhol)
Dia 18 – Rui Brito e Ricardo Neto
Dia 21 – Vassalo de Miranda
Dia 22 – Cyril Pedrosa (francês)
Dia 24 – Carlos Laranjeira e Horacio Altuna (argentino)
Dia 25 – Jorge Deodato e Luiz Beira
Dia 30 – Marcelo de Moraes

sábado, 7 de outubro de 2017

ENTREVISTAS (25) - SANTOS COSTA

Santos Costa, em Agosto de 2017
Veterano da nossa Banda Desenhada, Santos Costa (aliás, Fernando Jorge dos Santos Costa), nasceu em Lisboa a 14 de Fevereiro de 1951, residindo há muitos anos em Trancoso.
Bem raros são os nossos desenhistas veteranos que têm as suas energias criativas ao rubro e não pausam algum tempo. Salientamos nesta louvável raridade, José Ruy e Santos Costa e, até certo ponto, José Pires. Alguns, por razões de saúde, foram “forçados” a abdicar. Outros, não produzem por falta de desafios editoriais e outros ainda, por caprichosa preguiça...
Mas hoje, a conversa é com Santos Costa, que tem um currículo invejável e monumental.
É tanto e tanto, que sou obrigado a resumir esta apresentação.
Do anterior dia-a-dia, é aposentado da função pública. Safa, que isso já lá vai!... Mas, porém, todavia, contudo... sempre se dedicou intensamente a vertentes culturais: editor, escritor, ilustrador, jornalista, cartunista, sendo sobretudo um apaixonado criador da 9.ª Arte.
Foi marcante a sua colaboração como desenhista, nos periódicos “O Crime” (donde todas estas “estórias” bem mereciam ser compiladas em um ou dois álbuns...) e
“Mundo de Aventuras”.
Prancha de "O Atentado a Salazar", por Santos Costa, publicada no jornal "O Crime"

Capa e prancha de "O Atentado a Salazar", história publicada no jornal "O Crime",
que o autor reeditou em forma de caderno, com ajustes na montagem das vinhetas,
numa tiragem limitada de 100 exemplares só para amigos.

Tem álbuns editados por diversas Câmaras Municipais de regiões beirãs, como Trancoso, Lamego, Aguiar da Beira, Guarda, Meda e por aí adiante.
Capa e prancha de "Batalha de Trancoso - VI Centenário"
Edição Câmara Municipal de Trancoso (1985)

Capa e prancha de "Bandarra, Poeta, Profeta e Sapateiro de Trancoso", por Santos Costa,
Edição da Câmara Municipal de Trancoso (1990)

Também escreveu novelas policiais, editadas pela Bertrand.
Como cartunista, salienta-se a sua colaboração no periódico “O Diabo”.
Em intervenções soltas, notifica-se a sua participação no fanzine “Efeméride” de Geraldes Lino e a sua prestação especial neste nosso blogue (“Serpa Pinto”).
"Príncipe Valente em Trancoso no Século XXI", a participação de Santos Costa
no fanzine "Efeméride" #2, editado por Geraldes Lino, em 2007
Pela Rádio, também funcionou na Rádio Altitude da Guarda, nos programas “Diário Almanaque” e “Roteiro do Turista”.
Tem o seu digno blogue, “Bandarra Bandurra”, que vivamente aconselhamos a visitar com frequência.
De outros álbuns editados, demarcam-se: “Os Piratas do Deserto” (Edição Asa), “As Aventuras do Magriço” (já com dois tomos e com edição do autor), “A Viúva do Enforcado (Ed. Época de Ouro / CM do Fundão), “D. Egas Moniz, o Aio (Ed. Época de Ouro / CM de Lamego), “As Bodas de D. Diniz e Isabel de Aragão em Trancoso” (Ed. CM de Trancoso), “Registos Criminais ( Ed. Época de Ouro) e por aí adiante...
Duas pranchas de "D. Egas Moniz, o Aio", por Santos Costa
Edição da Câmara Municipal de Lamego (2003)

Capa e prancha de "Os Piratas do Deserto", adaptação livre da obra de Emílio Salgari,
por Santos Costa. Edição Asa (2012)

Em 2017, na Gala da Revista Anim’Arte/GICAV, de Viseu, recebeu merecidamente o Troféu Anim’arte 2016, na categoria Banda Desenhada.
Fica muita coisa por acrescentar mas opta-se, desde já, para a devida entrevista. Atentem bem nas suas sábias e conscientes respostas:

BDBD - Como surgiu a tua paixão pela Banda Desenhada?
Santos Costa (SC) - Não é paixão, é vício. Quase todas as paixões são falazes, assim como há vícios que se respeitam mais que as virtudes. Descobri muito cedo, mesmo antes de andar na vertical, que as canetas não serviam só para meter na boca e os livros, mesmo já impressos, nunca estavam acabados. Com três ou quatro anos, garatujava nas margens não impressas dos livros do meu pai.

BDBD - Essa paixão era só pela leitura ou também a vontade de a criar?
SC - Talvez seja uma idolatria absurda, mas adoro ler nos dois sentidos: os textos escritos e os desenhos. Talvez por isso eu leia as páginas de BD com muita lentidão. Só no cinema as imagens correm depressa. Na resposta à pergunta eu diria que é por ambas - ler e criar.
Se insistes em chamar paixão, confirmo que a leitura e a vontade de criar são como Romeu e Julieta - vivem inseparáveis.


BDBD - Tens uma invejável e imensa obra, a ponto de alguns álbuns serem “edições de autor”. É complicado um desenhista editar-se no nosso País?
SC - Complicado não é, basta haver vontade e bolsa, pelo que pesa mais a última na vontade de decidir. A auto-edição é uma liberdade impagável, porventura inelutável, mas com os seus riscos. Embora tenha a maioria dos trabalhos editados por outrem - editoras e municípios - sou muito independente e tímido q.b. para evitar bater à aldraba das portas de quem o possa fazer. Sou grosso de feitio e prefiro mourejar a andar de chapéu na mão - até porque não uso chapéu.
No entanto, no meu caso, parece-me que não é isto que me empana a fama.

BDBD - Onde vês algumas soluções para aliviar este “entupimento”, não só para as tuas obras como também para as de diversos colegas teus?
SC - Se eu vislumbrasse soluções, teria aplicado primeiro a receita antes de a divulgar; todavia, presumo que a solução começa nos primeiros anos da escola e nos sequentes onde, efectivamente, há horários para desenho e pouco entusiasmo sobre o mesmo. Há quem culpe as editoras, as distribuidoras e os livreiros da “amputação” das prateleiras da BD, substituindo-as por livros impressos com patacoadas e mexericos, mas julgo que essa culpa é assumida a jusante e nunca a montante. Encontras algum programa, a sério, sobre BD na televisão? Vês lá caras papudas, muitos “com que ursos”, lavagem de roupa suja, choradinhos e crimes de trazer os cabelos em pé, pontapés na bola e na gramática, horas de tédio que não desejo à terceira idade “obrigada” a gramar aquela sopa nas cadeiras dos lares. Se a televisão é imagem, a BD também o é. Uma devia respeitar a outra.
Vejamos: quem é o livreiro que vai empatar uma carga de euros em álbuns e livros que lhe são devolvidos tarde, a más horas e, por vezes, com resquícios de terem sido atropelados por um tractor agrícola? E quem é o distribuidor que calcorreia de Ceca a Meca com o leva e traz sem levantar um milímetro a ponta do gráfico das vendas? Quem é o livreiro que arrisca ocupar prateleiras com obras que não se enquadram nas patacoadas e mexericos (decerto não seriam mais rentáveis a venda de chouriços e presuntos nas arábias), obras cujos autores mais se assemelham a magarefes por se apresentarem com enredos de faca e alguidar.
Procurem solução nas escolas (digo, nas leis que as regem) e nos canais de televisão que não ligam patavina a um programa adequado à disseminação da BD e de outras artes afins (ao menos, um “reality show” onde os “nus” andassem a fingir ler um álbum de banda desenhada, maxime para taparem as “vergonhas”, mas nem isso).

BDBD - Um álbum teu, “As Bodas de D. Diniz e Isabel de Aragão em Trancoso”, tem também edições em castelhano e em inglês. Como foi esta aposta?
SC - Foi graças à visão da Câmara Municipal e da alargada visão cultural de quem a geria. Se um município pretende divulgar o concelho e os seus valores, não deve pensar só nos autóctones. Quem aposta no turismo tem de perceber isso… ou não percebe nada disso.
Os ingleses e os espanhóis são os que mais visitam o burgo. Se a eles acrescessem os japoneses, seria de arregaçar as mangas, virar da direita para a esquerda e colocar a linguagem indígena nipónica nos balões. A isto se chama realmente aposta. E ganha-se.
Capa e prancha de "As Bodas de D. Dinis e Isabel de Aragão em Trancoso",
(aqui na edição portuguesa), Edição CM de Trancoso (2005)

BDBD - Em publicações periódicas, tens maior prestação em “ O Crime” e “Mundo de Aventuras”. Donde guardas melhor satisfação?
SC - Melhor satisfação foi, sem dúvida, a do “Mundo de Aventuras”, até porque este era então gerido por uma figura incontornável e irrepetível da BD nacional naquele sector, que é o Jorge Magalhães. Ele teve a ideia de abrir as páginas de uma revista conceituada aos mais novos, aos diletantes, aos principiantes, um risco que poucos estariam dispostos a correr. O certo é que correu bem e saíram da iniciativa bons desenhistas e argumentistas. Foi um alfobre.
Quanto a “O Crime”, foi um desafio; e os desafios causam-me gosto. A somar a isto, foi compensador em termos metálicos do porta-moedas.
Prancha de "Os Crimes de Diogo Alves", publicada no semanário "O Crime"
BDBD - Há um estranho aspecto na tua carreira: às vezes, prometedoras apostas, ficam “abandonadas”! São os casos, por exemplo, de “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” e “A Rainha Africana”. Não vais mesmo terminar estes trabalhos?
SC - Tenho em mim um espírito troglodítico, ancestral. Se o terreno não é propício à minha caçada, não é por isso que me dedico à agricultura: vou caçar para outro lado. À margem da metáfora, afirmo que isto nem é por achar que determinado trabalho não tem saída, mas por fastio. O abandono é, assim, temporário. Quando a “saudade” ou a “fome do assunto” apertar, volto lá, mesmo que tenha de refazer tudo, de cabo a rabo.
“A Volta ao Mundo” ficou na viagem por um quarto do seu todo e aguarda o “click” para vir para cima da bancada; “A Rainha Africana” é uma obra que necessita de prateleiras por todo o país e não estou tentado a correr o risco de a receber de volta com os percalços ditos atrás ou a bater às aldrabas das portas com um chapéu emprestado.
Julguei que os blogues - pelo menos o meu - constituíssem uma espécie de barómetro para aquilatar das apetências sobre este ou aquele trabalho. Às vezes, pelo “silêncio”, dá-me a sensação que mais me valera pôr um surdo a ouvir uma partitura de Bach.
Pranchas de "A Volta ao Mundo em Oitenta Dias" e "A Rainha Africana",
projectos inacabados por Santos Costa

BDBD - Nas nossas novas gerações têm surgido, embora com mais joio do que trigo, alguns valores muito bons. O que pensas sobre isto?
SC - Tanto há trigo num campo de joio, como há joio num campo de trigo, o que parece ir dar ao mesmo. Considero que as novas gerações, numa maioria relativa, são mais trigo do que joio. O que falta são bons tratadores, segadores e consumidores, uma grande maioria mais inclinada para misturas transgénicas de má qualidade.
Há valores muito bons, muito bons mesmo. Cito o exemplo daquele jovem de Penalva do Castelo (na periferia como eu), o Rafael Sales. Assim ele não esmoreça com os entraves de que falei antes. Iremos ouvir falar muito dele e, mais ainda, ver obra sua publicada.
De um largo naipe, retiro mais um nome: o de Carlos Pais, um jovem professor de EVT/Educação Visual (actualmente no agrupamento do Sátão), que fez o favor de me mostrar um trabalho seu não editado, e que o merece ser. Uma obra magnífica em termos de traço próprio, que salta aos olhos.
Cito só estes dois exemplos, para não me alongar…

Santos Costa recebendo o
Troféu Anim'Arte 2016
BDBD - Que sentiste ao receberes o “Troféu Anim’Arte 2016”, pelo GICAV, na categoria Banda Desenhada?
SC - Senti o deslumbramento de receber um troféu, principalmente por ser atribuído por um Grupo que tem lutado pela dignificação e divulgação das Artes, de todas elas. Foi uma honra para mim. E senti que, na imensidade de nomes que poderiam ter estado nessa cerimónia, estarão outros que mereciam essa distinção.

BDBD - Qual o teu grande e próximo projecto?
SC - Suponho que foi Napoleão - se não foi ele, sou eu que agora o afirmo - que disse mais ou menos isto: “o meio mais seguro de manter uma promessa é não a prometer nunca”.
Tenho, nesta altura, a ideia de dar à estampa a BD sobre a “Vida e as Profecias do Bandarra”, que tenho em execução numa mistura, a cores, entre desenho e fotografia.
“Bandarra” vende muito bem, pelo que tenho de pensar como editor. No entanto, como já acabei a primeira parte do Magriço (260 páginas a preto), não sei se anteciparei esta à anterior. Como diz o povo, "é melhor ver de perto para contar de certo".
LB