domingo, 30 de julho de 2017

HERÓIS INESQUECÍVEIS (48) - SERAFIM & MALACUECO

Esta dupla popular e irresistível viu a luz do dia a 16 de Maio de 1896, na publicação inglesa “Illustrated Chips”. Seu autor: Tom Browne (1870-1910).
A primeira prancha de "Weary Willie and Tired Tim", publicada
na revista "Ilustrated Chips" #298 (16.05.1896)

Tom Browne (1870-1910)
Na sua versão original, chamavam-se Weary Willie (o esticadinho Serafim) e Tired Tim (o gordo Malacueco). As suas astutas e/ou aparatosas aventuras foram sempre publicadas com honra de primeira página, pormenor que aconteceu também quando publicadas em Portugal pela primeira vez, na revista “O Mosquito” #209, de 1940.
No nosso país, "Serafim e Malaqueco" foram também publicados na "Colecção de Aventuras" (1940/42), na última etapa de "O Mosquito" (1952/53), na revista "Valente" (meados dos anos 50) e, nos anos setenta, no "Jornal do Cuto" (que recuperou histórias anteriormente publicadas n' "O Mosquito").
A série que divertia uma multidão de bedéfilos em vários países, terminou a 12 de Setembro de 1953.
Tom Browne desenhou-a de1896 a 1900, sendo prosseguida por Arthur Jenner e depois, por Percy Cocking.
Por volta de 1903, a série conheceu algumas adaptações ao Cinema, em curtas metragens, com realização de William Haggar, que usou dois dos seus filhos como protagonistas: James Haggar (Tired Tim) e Walter Haggar (Weary Willie).
Esta dupla é a de dois vagabundos que tudo fazem para viver bem, graças à sua esperteza... nem sempre triunfante. 
De certo modo, foram inspirados em Don Quixote e Sancho Panza. Mesmo assim, estes dois “heróis”, inspiraram muitas parcerias semelhantes, tanto na BD como no Cinema, como foi o caso de Oliver Hardy (Bucha) e Stan Laurel (Estica).
Ainda hoje, com carinho e nostalgia, se relêem com muito agrado estas tão divertidas tropelias.
"Weary Willie and Tired Tim", in "Ilustrated Chips" #2813 (05.07.1947)
"Serafim e Malacueco", in "O Mosquito" #1125 (Abril.1950)
"Serafim e Malacueco" na primeira página de "O Mosquito" #1126 (08.04.1950)
"Serafim e Malacueco", in "O Mosquito" #1149 (Junho.1950)
"Serafim e Malacueco", in "O Mosquito" #1150 (Julho.1950)
A popularidade destes personagens no nosso país acabou por torna-los alvo de alguns pastiches por parte de consagrados autores portugueses, que, dessa forma, homenagearam as suas divertidas aventuras. 
Tais foram os casos de José Abrantes e Jorge Magalhães, que publicaram no "Almanaque O Mosquito", em 1987, uma aventura em quatro pranchas (que foi, vinte anos mais tarde, reeditada no #7 dos "Cadernos Moura BD")...
"O Regresso de Serafim e Malacueco", por Jorge Magalhães (texto)
e José Abrantes (desenhos), in "Almanaque O Mosquito" (1987)

... e de Eugénio Silva que realizou, para o fanzine de Geraldes Lino, "Efeméride", uma divertida prancha humorística (algo pouco usual neste autor).
LB
"Serafim e Malacuéco", por Eugénio Silva (texto e desenhos),
in fanzine "Efeméride" #6 (parte 3 de 4), Edição: Geraldes Lino (2015)

Nota: gratos pela amável colaboração de Jorge Magalhães.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

BREVES (45)

OFICINAS DE DESENHO AO AR LIVRE
O "Ericeira BD" continua a promover oficinas de desenho ao ar livre naquela simpática vila. Estão programadas, para o mês de Agosto, as seguintes:

No dia 1, no Parque de Santa Marta, o tema será "Natureza e Paisagem vs Espaços Urbanos" - desenho de perspectiva com criatividade: como desenhar espaços e dar-lhes vida!.

No dia 15, o tema será "Desenhar pessoas na Rua (sem as assustar)" - desenho rápido de observação de modelos que estão em constante movimento; conseguir captar diferentes tipos de corpos, rostos e poses em menos de 10 minutos.

Mais informação pode ser consultada aqui.


40 ANOS DE STAR WARS ATÉ SÁBADO
Hoje e amanhã, ainda pode visitar, na Biblioteca Campus 1 (Politécnico de Leiria) a exposição Star Wars: 40 Anos", uma exposição de brinquedos, livros e coleccionáveis desta saga, um dos maiores fenómenos da cultura pop.
Pode ver no site oficial do Politécnico de Leiria um conjunto de fotografias desta mostra. 


QUADRADINHOS PORTUGUESES




E pode, também, continuar a ver, até dia 3 de Setembro, a exposição "Quadradinhos Portugueses: Olhares e Estilos", na Cidadela de Cascais, com trabalhos de treze autores de estilos bem diferentes (José Ruy, José Garcês, Baptista Mendes, Victor Mesquita, Pedro Massano, Luís Differ, Daniel Maia, João Mascarenhas, Renato Abreu, João Amaral, Susana Resende, Penim Loureiro e Fernando Vilhena de Mendonça).
Mais informações podem ser consultadas aqui ou aqui.



AFONSO HENRIQUES EM... VISEU
Desenho de Artur Correia
Em primeira mão - e para que vão já marcando no vosso calendário bedéfilo - podemos dizer que no final do próximo mês de Agosto (presumivelmente no dia 27, embora esta data ainda careça de confirmação) será inaugurada uma exposição em Viseu sob o tema "D. Afonso Henriques na Banda Desenhada".
A mostra será promovida pelo Gicav (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu) e estará dentro da linha de exposições que aquela colectividade tem produzido nos últimos anos, com o êxito que se lhe (re)conhece.
Voltaremos a este assunto assim que tivermos informações mais detalhadas.



ANIVERSÁRIOS EM AGOSTO


Dia 01 - Andrei Arinouchkine (bielorrusso)
Dia 03 - Luvi e Miguel Montenegro
Dia 04 - Guillermo Mordillo (argentino)
Dia 06 - Manuel Caldas
Dia 08 - Derib (suíço) e Ralf König (alemão)
DIa 10 - João Neves e Jean Graton (francês)
Dia 13 - Enrico Marini (italo-suíço)
Dia 15 - Pedro Massano e Tozé Simões
Dia 17 - Álvaro
Dia 18 - Annie Goetzinger (francesa) e Xabel Areces (espanhol)
Dia 27 - Nuno Saraiva
Dia 30 - Óscar Alves (caboverdeano)

domingo, 23 de julho de 2017

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - ARTE COM MUITA OFICINA (2)

Por: José Ruy


Em 1934, Milton Caniff foi desafiado pelo editor do «New York Daily News» para criar uma tira diária passada no lendário e misterioso Oriente.
E mudou-se com «armas e bagagens» para New York.
Caniff pouco sabia dessa parte do mundo e teve de se documentar com rigor sobre a história da China, dos costumes dos seus habitantes e das tradições de família que transitavam através de gerações. De tal modo, que parecia ter habitado nesse país, pela maneira realista como criava e desenhava os ambientes.
Eis a primeira tira de apresentação dessa série diária.

Terry Lee era um rapazinho que viajava pela misteriosa China acompanhado por um mentor - Pat Ryan, um aventureiro - e por mais personagens. Apareceu ao público a 22 de outubro de 1934.

Em dezembro desse mesmo ano Caniff passou também a participar nas séries independentes desse jornal, publicadas ao domingo. As aventuras dessas séries funcionando com as mesmas personagens, tinham argumentos diferentes, nada tendo a ver com a história que decorria diariamente nas tiras.

Estas tiras eram publicadas diariamente, menos ao sábado e ao domingo. Ao contrário de outros autores norte-americanos e até ingleses, Caniff não repetia no início da tira do dia seguinte, o fim do que acontecia na anterior. Mantinha uma tal fluência na narrativa, que tornava dispensável a leitura das legendas para se compreender a história.
Outros jornais, mesmo na Europa, reuniam estas tiras editadas de segunda a sexta-feira e formavam páginas que publicavam semanalmente. Tanto a sequência do movimento como o desenrolar da ação não se ressentiam pela intermitência na publicação dia a dia. Era como se tivesse sido concebida de início como uma página inteira. Em todas as tiras podemos ver a assinatura do autor, bem como o carimbo da agência editora.

Uma página com cor das edições de domingo, ainda no princípio da série...

...e um original desenhado a tinta-da-china, uns anos mais tarde.
Nota-se que o autor trabalhava estas últimas páginas em duas metades que eram unidas na altura da reprodução, pois os originais tinham uma grande dimensão. Uma cópia do título, em papel de jornal, era colada na vinheta inicial apenas para marcar a posição, pois a agência sobrepunha em todas as pranchas a matriz que possuía.
Assinala-se aqui uma notável evolução no desenho.


A personagem Terry Lee foi crescendo, alistou-se na Força Aérea e chegou a combater na Segunda Guerra Mundial. Por essa altura Caniff foi convidado a desenhar uma tira exclusiva para sair nos jornais militares e mais tarde doou esses originais às Forças Armadas.
No decorrer da História de ficção, em 1942, Terry foi expulso pelos japoneses de uma ilha do Pacífico. Isso teve uma tal repercussão junto do público, que o Pentágono pediu ao autor para que o herói reconquistasse a ilha, a bem do ego nacional.
Precisamente nessa data, o mestre Rodrigues Alves contou-me, bem como aos meus colegas, que numa das encruzilhadas do argumento que se desenrolava no Oriente, Caniff idealizou uma situação em que Terry e os seus companheiros que combatiam os piratas chineses, se encontravam encurralados sem possibilidade aparente de escaparem.
Por coincidência, e sem que Caniff soubesse, decorria uma situação idêntica com as tropas americanas que lutavam no Pacífico, mas em que os japoneses eram os encurralados. Como o herói Terry não poderia sucumbir, e admitindo a hipótese de o inimigo acompanhar a série, o desfecho que o autor desse ao enredo podia ser utilizado para que os sitiados conseguissem escapar. Tal era o rigor do argumento.

O Alto comando das Forças Armadas norte-americanas manteve Caniff isolado no seu ateliê, com guarda à vista, para ver qual a saída que ele criava para a situação, e verificar tratar-se de um caso de espionagem lesa pátria, ou simplesmente de uma coincidência.
Não me recordo como Caniff desfez o «imbróglio», mas contou o Mestre Alves que entretanto os japoneses foram mesmo derrotados, antes da continuação da história nas páginas dos jornais. Um alívio para Milton Caniff que tinha de salvar o seu herói sem que a estratégia pudesse ajudar o inimigo na situação real.
Esta personagem, embora criada por Milton Caniff, tinha os direitos cativos pelo «Chicago Tribune-New York Daily News Syndicate» e apesar da série ter alcançado o maior sucesso, mesmo internacionalmente, o autor não era dono do título. Desgostoso, Caniff aceitou a proposta de Marshall Field, editor do «Chicago Sun» para produzir uma tira própria.
(continua)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

LITERATURA E BD (11) - JOSÉ DE ALENCAR

José de Alencar (1829-1877)
De seu nome completo, José Martiniano de Alencar, nasceu em Messejana (Ceará, Brasil) a 1 de Maio de 1829 e faleceu no Rio de Janeiro a 12 de Dezembro de 1877.
Segundo certos registos biográficos a seu respeito, foi político, advogado, orador, jornalista, cronista, polemista, dramaturgo e romancista. Enfim, uma vida bem vivida e bem agitada!
Controverso pelo mundo brasileiro, pelo nosso Portugal importa muito mais a sua obra literária na vertente do romance, onde ele sempre nos encanta.
Por esta via, escreveu obras de belo registo histórico que nos emocionam. Títulos bem famosos: a impecável trilogia “índia”, com “Iracema”, “O Guarani” e “Ubirajara”; e depois, nos principais, “O Tronco do Ipê”, “Til”, “O Gaúcho”, “O Sertanejo”, “Senhora” e por aí adiante...
Dos seus vinte romances, há alguns que se destacam com alta força, como “O Guarani” (com altíssima posição), que foi adaptado à Ópera com a esmagadora beleza da partitura de Carlos Gomes, ao Cinema (com várias versões, nem sempre conseguidas) e ao notável seriado-TV (em 1991), cuja versão foi transmitida em tempos pela nossa RTP 1, onde se destacam as brilhantes interpretações de Leonardo Brício (Peri, o Guarani) e Angélica Ksyvickis (Cecília). Já a versão de Cinema com Márcio Garcia, foi um tremendo “flop”!
Pela Ópera, as melhores versões (existentes em CD), são as interpretadas por Nilza de Castro Tank (Cecília) e Maurício Patassini (Péri), com edição Chantecler; e, por Dalka Oliveira e Assis Pacheco, com edição da Secretaria de Estado da Cultura do Brasil.
Pois pela Banda Desenhada, José de Alencar jamais esteve esquecido, antes pelo contrário. Focamos, a seguir, apenas alguns exemplos.
A primeira adaptação conhecida foi "O Guarany", por Francisco Acquarone, publicada em 1937 no jornal brasileiro "Correio Universal", uma peça histórica recentemente reeditada pelas Edições do Senado Federal (Brasil). 
Capa e tiras de "O Guarany", por Francisco Acquarone, Edições do Senado Federal, volume 235 (2017)
O nosso José Ruy desenhou admiravelmente “Ubirajara” - a partir de uma adaptação de Maria Fernanda Pinto ao texto de José de Alencar - que foi publicado a cores no “Cavaleiro Andante”...
"Ubirajara", por Maria Fernanda Pinto (adaptação) e José Ruy (desenhos),
in "Cavaleiro Andante" #210 a #229 (1956)

...sendo mais tarde reeditado (a preto e branco) pelas edições Futura, em versão álbum (esgotado).
"Ubirajara" por Maria Fernanda Pinto (adaptação) e José Ruy (desenhos),
in "Antologia da BD Portuguesa" #1 (Edições Futura, 1982)

Mas o mesmo romance, “Ubirajara”, também foi adaptado pelo haitiano André Le Blanc, que viveu vários anos no Brasil, trabalhando para a editora EBAL, sobretudo para a colecção “Edição Maravilhosa”. 
"Ubirajara" por André le Blanc (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Clássicos Ilustrados" #57 (Outubro de 1952)

Para esta linha, André Le Blanc, também desenhou “O Guarani”...
"O Guarani" por André le Blanc (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Clássicos Ilustrados" #24 (2.ª edição, Fevereiro de 1954)

...“Iracema”...
"Iracema" por André le Blanc (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Clássicos Ilustrados" #31 (Janeiro de 1951)

...“O Tronco do Ipê”, etc.
"O Tronco do Ipê" por André le Blanc (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Clássicos Ilustrados" #46 (Março de 1952)

O nosso Jayme Cortez também adaptou "O Tronco do Ipê", em formato de tiras, para o jornal brasileiro "Diário da Noite" mas de tal exemplo por ora não temos imagens.
Mas outros notáveis do traço brasileiro por aqui se apostaram, como José A. Rossin, com “Til”...
"Til" por José A. Rossin (adaptação e desenhos) e capa de Gutemberg Monteiro,
in "Álbum Gigante" #7 (Julho de 1955)

 ...e José Geraldo com “O Sertanejo”...
"O Sertanejo" por José Geraldo (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Extra" #95 (Novembro de 1954)
Capa de Antonio Euzébio

...“O Gaúcho”...
"O Gaúcho" por José Geraldo (adaptação e desenhos),
in "Edição Maravilhosa - Extra" #83 (Março de 1954)
Capa de Antonio Euzébio

...e "Senhora", por exemplo.
"Senhora", por José Geraldo (adaptação e desenhos).
in "Edição Maravilhosa - Extra" #120 (Março de 1956)
Capa de Antonio Euzébio

E mais: “O Guarani”, teve, entre outras adaptações (agora mais recentes) as de Juliano Oliveira e Rosana Rio, que adaptaram a ópera de António Carlos Gomes e António Scalvini, baseada na obra original de José de Alencar...
"O Guarani" por Rosana Rio (adaptação) e Juliano Oliveira (desenhos),
Colecção Ópera em Quadrinhos, Edição Scipione (2012)

...e a da parceria Ivan Jaf / Luiz Gê.
"O Guarani" por Ivan Jaf (adaptação) e Luiz Gê (desenhos),
Colecção "Clássicos Brasileiros em HQ" - Ática Editora (2009)

Os brasileiros Ivan Saidenberg e Moacir Rodrigues Soares, das Produções Walt Disney, também focaram "O Guarani", numa aventura de Zé Carioca (como não poderia deixar de ser)...
"O Guarani", numa aventura de Zé Carioca, por Ivan Saidenberg (argumento)
e Moacir Rodrigues Soares (desenhos) (Estúdios Disney, 1984)
José de Alencar, que escreveu sete peças de Teatro, tem uma estátua no Rio de Janeiro e outra em Fortaleza (junto a um hotel de renome).
Foi homenageado também na Filatelia do Brasil com um selo de 30 cruzeiros (a moeda local de então) em 1965, comemorativo do centenário da publicação do romance “Iracema”.
A finalizar, dois pensamentos de Alencar:
O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte”.
“Só a ignorância aceita e a indiferença tolera o reinado da mediocridade”.

Agradecemos o fraterno apoio prestado por Carlos Gonçalves.